quarta-feira, 17 de julho de 2013

O efêmero intervencionismo urbano de Christo e Jeanne-Claude

casal de artistas
Christo e Jeanne-Claude
Tudo começou em 1958 com um pequeno contêiner embrulhado com lona e adornado com cola, areia e tinta. A partir daí Christo Yavashev, começou a transformar em arte seus empacotamentos, trabalhando em escala colossal. Juntamente com sua mulher Jeanne-Claude Denat, contribuíram para o desenvolvimento do conceito de earth art (tipo de arte em que o terreno natural é trabalhado de modo a integrar-se à obra).
Suas obras são resultado de um complexo processo de concepção que envolve uma enorme gama de recursos humanos e materiais. Mas ao contrário do que se pensa, estas imensas estruturas construídas transitoriamente em meio a natureza, que consomem uma grande quantidade de matéria prima, mão de obra e dedicação, formam um conjunto coletivo de ingredientes que revelam um incrível senso de trabalho em equipe e de sustentabilidade ecológica. Depois de expostas as estruturas são desmontadas e nenhum vestígio permanece no local que possa denunciar indícios de que o gigantesco aparato ali esteve montado. Todo material descartado é reaproveitado e ou reciclado.  
A ideia de usar o tecido para revestir temporariamente paisagens tanto urbanas quanto naturais, traduzem um ciclo que muitas vezes pode ser encarado como o da vida material, onde um corpo frágil e ao mesmo tempo complexo existe transitoriamente em meio um intrincado conjunto coletivo de processos e interações.
Outra característica peculiar nos trabalhos e projetos do casal é que os recursos financeiros são subsidiados pelos próprios artistas, através da arrecadação de fundos com a venda (a preço de obra de arte) do processo que Christo intitula de a Fase de Hardware (desenhos, fotografias, mapas, maquetes, croquis), que são preparatórios para a fase de execução, e não aceitam nenhum tipo de patrocínio. E o dinheiro que recebem destas vendas é destinado todo a fase de preparação, finalização, manutenção e remoção, não há lucro, nem dinheiro de volta, "é como criar um filho", explica Jeanne, que já deixou esta passagem transitória corporal em 2009.



Christo Yavashev
A cadeira envolta (wrapped chair) - 1961





 
Um de seus primeiros trabalhos, exposto no Museu de Arte de Cleveland, EUA.












Christo Yavashev
Pacote (Package) - 1965




Os pacotes lacrados refletem a primeira impressão do artista, sobre as embalagens ocidentais - o mesmo havia fugido da Alemanha Oriental em 1958 - envolvendo completamente o conteúdo com um tecido dobrado de forma complexa e então os amarra com cordas. Eis que o conteúdo permanecerá para sempre cerrado dentro do embrulho, e sua desocultação acarretaria na destruição da obra.  Esta idéia é interpretada por Christo quando, em 1962, envia um ‘pacote’ para o artista americano Ray Johnson, que o abriu para encontrar uma fotografia do pacote e uma nota informando que ele tinha arruinado a obra de arte.










Christo e Jeanne-Claude
Wrapped Coast (Costa embrulhada) 1969




 Em 1969, o primeiro projeto em escala colossal em paisagens naturais, envolver em tecido e corda o sinuoso litoral rochoso de Little Bay, na costa australiana.  O trabalho levou apenas um mês para ser executado e contou com a participação de mais de 100 pessoas, entre engenheiros, alpinistas e trabalhadores em geral.





Christo e Jeanne-Claude
Wrapped Coast - 1969

Christo e Jeanne-Claude
Valley Curtain (Vale Cortina) - 1972

Entre 1970 e 1972 foi a vez do casal içar velas rumo aos estados Unidos, mais precisamente em Rifle no Colorado, onde uma cortina gigantesca foi colocado em meio ao vale serpenteado por belas montanhas rochosas. Esse projeto exigiu muito esforço e paciência por parte da dupla, que teve sua primeira tentavia frustrada devido a forte influência dos ventos, uma vez que o apoio artificial da cortina de poliamida laranja variava entre alturas de 55 a 110 metros.


Christo e Jeanne-Claude
A imensa cortina laranja que cortava o vale Rifle


Christo e Jeanne-Claude
Vista aérea do Vale Cortina - 1972



Valley Curtain demonstra a efêmera essência das obras intervensionistas de Christo e Jeanne-Claude, pois devido a força dos ventos a cortina teve quer ser removido apenas 28 horas após sua coolocação, demonstrando a dedicação e determinação dos artistas para ver a ideia materializada através da conclusão do projeto.





Outro grande desafio à perspicácia do perseverante casal foi a obra Running Fence uma cerca de tecido de 38 km de extensão através do estado da Califórnia, erguendo-se do Oceano Pacífico ao sul de Bodega Bay, levando 4 anos desde a concepção até sua montagem.

Christo e Jeanne-Claude
Running Fence - 1976


Christo e Jeanne-Claude
Running Fence (vista aérea) - 1976

Em 1983 as ilhas cercadas (Surrounded Islands) foi mais um colossal trabalho envolvendo arquitetura, engenharia e arte, e requereu também, assim como em todos os seus trabalhos, um amplo projeto de impacto ambiental com biólogos e ornitólogos, sendo que junto com o desenvolvimento do projeto foram coletadas mais de 30 toneladas de lixo em volta das 11 ilhas da Baía de Biscayne em Miami.

Christo e Jeanne-Claude
Surrounded Islands - 1983


Christo e Jeanne-Claude
Surrounded Islands - 1983



 Talvez o projeto mais escultural do casal o envolapamento da Ponte Neuf em Paris contou com mais de 300 colaboradores, depois de autorização concedida tanto pelo prefeito da cidade quanto do presidente francês.

Christo e Jeanne-Claude
Pont-Neuf Wrapped - 1985

Christo e Jeanne-Claude
Pont-Neuf Wrapped

Em 1995 foi a vez do parlamento alemão receber o embrulho de Christo e Jeanne-Claude.

Christo e Jeanne-Claude
Wrapped Reichstag - 1995


Após  partida de sua companheira Christo concebeu mais um incrível obra pensada por eles: o Big Air Package (Grande Pacote de Ar), em gigantesco pacote erguido dentro do Gasômetro de Oberhausen, na Alemanha. A instalação consiste numa gigantesca estrutura de tecido - o maior tecido inflável sem estruturação já feito -  de 90 metros de altura, 50 metros de diâmetro e 177,000 m³ de volume.

Christo e Jeanne-Claude
Esboço Big Air Package

 
Christo e Jeanne-Claude
Interior do Big Air Package


Christo e Jeanne-Claude
Big Air Package - 2010



sexta-feira, 28 de junho de 2013

O absurdo existencial de Albert Camus

retrato
Albert Camus
A afirmação de que a vida tem um imenso valor, mas é banalizada pela morte que a priva de significado, molda o dualismo paradoxal presente na instigante obra de Camus. A sensação absurda, que todos nós já tivemos ou ainda teremos, da falta de sentido no mundo, levou Albert Camus a conclusão de que para sobrevivermos em meio a esta panaceia existencial, seria melhor deixar de lado as ambições e pensamentos e concentrarmo-nos nas atitudes e vivencias cotidianas; ideias estas, que aliás, acabaram-no rotulando-o como existencialista, apesar dele rejeitar tal rótulo.
O questionamento a respeito da inútil exploração em busca de um significado num mundo incompreensível,  nos leva a uma profunda e reflexiva análise do âmago da civilização humana cada vez mais difusa, impessoal e burocrática, que no decorrer de sua extensa jornada ainda não conseguiu encontrar um caminho que a leve a evolução. 
Temas sobre a confusão existencial humana recorrentes em suas obra ajudaram-no a figurar entre os grandes seres "construtores de pontes", àqueles que procuraram, através da arte, encontrar um lampejo de compreensão sobre a ordem cósmica que atua sobre nossas mentes e nos mantém acordados em meio a uma agonizante sociedade.


Algumas de suas principais obras:


Albert Camus
O estrangeiro - 1942





Um estrangeiro, é assim que o personagem principal da obra se sente, ante a sensação de um mundo sem sentido. Isolado em seu âmago, o jovem argelino Meursault é levado a julgamento por matar um homem, porém não é a natureza do crime que ofende o tribunal, mas sim sua recusa ao remorso, sendo assim, considerado subumano por sua não conformidade. Seu desapego e sua alienação emocional acabam levando-o à morte.











Albert Camus
A peste - 1947




Em A Peste, Camus faz uma alusão alegórica à ocupação da França pelos nazistas, onde os cidadãos da cidade argelina de Oran são assolados por uma praga oriunda dos ratos e ficam privados do mundo exterior. Em meio ao agonizante cenário de caos social o triunfo do espírito humano é o resultado da decisão unilateral de trabalhar juntos em vez de buscar soluções pessoais.














Albert Camus




A Queda levanta a questão sobre o egoísmo e felicidade, num elegante monólogo do bem sucedido advogado de defesa parisiense Jean-Baptiste Clemence, que equivale a uma confissão: toda uma vida dedicada a ajudar fracos e oprimidos se desmancha na hipocrisia complacente de ações realizadas para sua exclusiva satisfação. Foi seu último livro.














Albert Camus
O mito de Sísifo - 1942



Na literatura grega Sísifo foi condenado a empurrar incessantemente uma pedra até o topo de um monte apenas para vê-la rolar até embaixo novamente, uma metáfora dolorosa para muitos trabalhos modernos: fúteis, sem esperança e repetitivos. Camus tenta extrair da lenda homérica as circunstâncias exatas que levaram a este extremo castigo.






















Albert Camus
O homem revoltado - 1951





Camus também examinou a ideia da rebelião em seu longo ensaio O homem revoltado.

















" O que é a felicidade senão a mera harmonia entre um homem a vida que ele leva?" - Albert Camus














quarta-feira, 19 de junho de 2013

Restam dúvidas em cima do imenso muro que me mantém suspenso sobre o abismo da civilização humana?




Um dia qualquer desses, você acorda, sai às ruas e ou liga seu computador e depara-se com notícias e informações sobre protestos e manifestações espalhadas pelas ruas, pessoas revoltadas e indignadas clamando seus direitos contra os agentes que regem a onipotente máquina sistêmica. Imediatamente angustiantes dúvidas pousam sobre meus ombros, debruçando um extenuante peso carregado de sentimentos mesclados de esperança e desânimo. Esperanças por querer acreditar que as pessoas, por menor que seja a parcela delas, estão fartas de manipulações demagogas de um governo corrupto que procura fornecer o conforto social através do incentivo ao consumo, com uma pífia política de emprego, contribuindo assim para abastecer com mão de obra barata àquelas que são suas maiores fomentadoras: as grandes corporações. E mesmo tentando minimamente ser racional e realista, o desânimo surge a rondar as janelas de uma paranóica lucidez, construída e moldada em meio à doutrinas, teorias e conspirações oriundas deste processo ideológico que nos domina e abomina. E inebriado por divagações procuro não perder a sensibilidade e me consolo nos braços de um surrealismo utópico e romântico baseado numa apreciação otimista da natureza humana que considera o governo (dominação) como o mal absoluto. Diferente disso, só me resta viver em meio a doença desta vida materialmente ilusória, construída diante de nossos narizes, sedado por altas dosagens de arte, amor e cultura, e algumas cápsulas de outros sentimentos mais puros que ainda não nos foram tirados, procurando encontrar o caminho em busca do autoconhecimento e da evolução mental, ou então, quem sabe, morrer lutando violentamente à procura de uma paz até então nunca encontrada.


Por Leonardo Barden

quarta-feira, 29 de maio de 2013

As múltiplas perspectivas de El Lissitzky



El Lissitzky
Auto retrato - 1924

 Arquiteto, designer, fotógrafo e tipógrafo, além de professor, El Lissitzky foi, ao lado de Kazimir Malevich, um dos maiores expoentes do movimento artístico russo denominado Suprematismo, que tinha como cerne principal de sua ideologia a supremacia do puro sentimento aliado ao estudo das formas geométricas básicas - particularmente o quadrado e o círculo.
Suas experiências em diversas áreas de estudo lhe muniram de uma enorme gama de ferramentas para suas composições artísticas que eram apoiadas na fusão entre arquitetura, designer e pintura, tornando seu estilo de design gráfico um marco para o século XX, influenciando importantes movimentos artísticos como o Bauhaus e o construtivismo russo.
Uma de suas principais criações artísticas foi o estilo suprematista alternativo, que consistia numam série de obras geométricas abstratas que batizou de Proun. O significado exato do termo foi associado a contração de "proekt utverzhdenya novogo" (desenho para a confirmação do novo), mas mais tarde o autor definiu ambiguamente como sendo: " o patamar onde alguém muda da pintura para a arquitetura". 
Sua vasta obra percorre desde trabalhos arquitetônicos, pinturas, fotomontagens, capas de livros, cartazes de tipografia e desenho industrial.

Algumas de suas obras:

El Lissitzky
victory over the sun all is well that begins well and has no end - 1913






















El Lissitzky
There is over - 1920
























El Lissitzky
Lenin Tribune - 1920
El Lissitzky
Proun 30 - 1920






























El Lissitzky
Suprematic tale about two squares - 1920























El Lissitsky
Preliminary sketch for a poster - 1920


















El Lissitzky
Proun - 1922
El Lissitzky
Cover of the book teyashim four billy goats - 1922












































El Lissitzky
Cover of the avant guard periodical vyeshch - 1922


El Lissitzky
Proun 19 D - 1922














































El Lissitzky
Announcer - 1923






















El Lissitzky
New Man - 1923






















El Lissitzky
Proun - 1923
























El Lissitzky
Proun G7 - 1923






















El Lissitzky
Proun 99 - 1924























El Lissitzky
Iron in clouds for strastnoy boulevard - 1925





















El Lissitzky
Four arithmetic actions - 1928













El Lissitzky
Basic calculus - 1928


















El Lissitzky
Proun 4B























El LIssitzky
Tatlin at work
























El Lissitzky
All for the front all for victory



quinta-feira, 23 de maio de 2013

Nação Jazz - Raul de Souza e seu lendário Souzabone

  
trombonista brasileiro
Raul de Souza


Do subúrbio carioca para o mundo nasce um dos maiores trombonistas da história. Aos 16 anos um jovem promissor inicia sua aventura existencial rumando pelos intrincados e tortuosos caminhos da música, literalmente, colocando a boca no trombone. Assim como acontece quase costumeiramente com os grandes gênios, o jovem garoto, autodidata, aprende a tocar o instrumento de ouvido e adquire as artimanhas através de experiências embalando as noites cariocas. Compositor e multi-instrumentista, Raul de Souza, além do trombone, toca também sax e percussão. Em determinado momento de sua carreira, mais precisamente em 1973, decide atender a um convite para excursionar em turnê pelos Estados Unidos, aonde em 1974, concebe e grava, aquela que seria considerada sua obra prima, o álbum Colors, despejando neste disco todo seu virtuosismo sonoro. O álbum transformou-se em matéria de análise para escolas e estudiosos de música nos Estados Unidos e no mundo, devido às variações rítmicas e melódicas que nele se apresentam.






Raul de Souza
Colors - 1974



 O disco foi produzido por Airto Moreira, a obra conta com participações de pesos pesados do Jazz como o gigante do trombone J. J. Johnson nos arranjos. À frente de um conjunto formado por Jack DeJohnette, na bateria; Ted Lo, piano e teclados; Richard Davis, contrabaixo e percussões do próprio Airto Moreira e Kenneth Nash. O álbum traz com grande naturalidade performances que oscilam magnificamente da gafieira ao fusion






Despenda alguns instantes de sua rotina para ouvi-lo e tire suas próprias conclusões.

A inventividade de Raul não se detém apenas em fazer música, mas também reside no fato dele aperfeiçoar instrumentos, como o fez, adicionando uma nova válvula para o trombone, criando assim o Souzabone, um trombone de quatro válvulas.
 






sexta-feira, 10 de maio de 2013

André Breton: o parteiro insano da imaginação surreal

poeta e teórico surrealista
André Breton

A lucidez lógica de um sistema de crenças envolto à guerras, intrigas e ganância, revela os horrores da dura realidade mundana. Procurar por novos horizontes e pensamentos paralelos a este infame universo criado pelo homem, foi o caminho traçado pelo poeta e escritor André Breton para desvincular a arte das, até então dominantes, exigências lógicas e racionais, trazendo à tona, como mais uma forma de expressão, às profundezas do inconsciente e dos sonhos, dando origem às teorias do movimento surrealista. "Não é o medo da loucura que nos vai obrigar a hastear a meio-pau a bandeira da imaginação" - Frase extraída do Manifesto do Surrealismo escrito por Breton em 1924.

O fascínio exercido pela psicologia e pela insanidade humana na mente de Breton impulsionaram seu mergulho aos confins da consciência, em busca de significados mais perspicazes a respeito da situação humana, acabando por se tornar o cerne vital do movimento surrealista: "A fusão entre o homem racional e sensível, renegada pelas teorias antropológicas até então, trouxe à superfície do pensamento humano a reconciliação do indivíduo com seu próprio mundo interior. Somente através do objeto artístico jorrado diretamente do inconsciente seria possível tocar a profundidade do sentimento humano. 

"A mente que mergulha no surrealismo revive com excitação ardente a melhor parte da infância" - André Breton


Algumas de suas instigantes obras:

André Breton
Nadja - 1928




Não se trata de um livro sobre surrealismo, mas sim da própria e pura experiência surreal de Breton. Nele o autor relata seu breve romance com uma misteriosa mulher chamada Nadja, que ele conhece por acaso caminhando pelas ruas de Paris. Este ser errante e misterioso, dotado do mais elevado grau de liberdade, representa o espírito do surrealismo. Embora Nadja se apresente como a encarnação dos ideais surrealistas, ela também pode ser vista como a personificação da anima de André Breton.
Anima representa as tendências psicológicas femininas do homem. Está relacionada aos sentimentos e sensibilidade. É através dela que o homem entra em contato com sua interioridade, penetrando nas ligações mais profundas da psique.







André Breton
O Amor louco - 1937




Como de hábito Breton funde textos e imagens surreais nesta obra onde descreve o amor através da sua própria vivência, vendo neste dois aspectos - o amor como 'comunicação do coração' e o amor carnal, ao qual chama 'convulsivo'. Esta separação entre o corpo e o espírito quer Breton transformá-la em união total, em paixão, nesse famoso 'amor louco' que é para Breton o amor mais sábio, mais sublime, que a alma do homem poderá alcançar.












André Breton
Manifesto do Surrealismo - 1924

Nesta obra Breton anuncia ao mundo o nascimento do Surrealismo, iniciando com o seguinte trecho: "Tamanha é a crença na vida, no que a vida tem de mais precário, bem entendido, a vida real, que afinal esta crença se perde. O homem, esse sonhador definitivo, cada dia mais desgostoso com seu destino, a custo repara nos objetos de seu uso habitual, e que lhe vieram por sua displicência, ou quase sempre por seu esforço, pois ele aceitou trabalhar, ou pelo menos, não lhe repugnou tomar sua decisão ( o que ele chama decisão! )". E terminando o manifesto com uma de suas frases mais célebres: "Viver e deixar de viver são soluções imaginárias, a existência está em outra parte".
Breton escreveria ainda o segundo manifesto em 1930









André Breton
Vasos Comunicantes - 1932




Neste livro Breton pretende demonstrar que o mundo real e o mundo dos sonhos são o mesmo, examina as várias teorias de interpretação dos sonhos e não se esquece de que a unidade do sonho e da realidade estão enraizadas na transformação social. No entanto o que ele procura além da revolução é o destino do homem, destino nada místico, mas carnal, pois o mundo dos sonhos, para constituir-se, faz mais que extrair o fluxo de experiência. Assim não deixa de diferenciar em Vasos Comunicantes as operações verdadeiras das operações ilusórias que se escrevem em um e outro mundo.
 
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