quarta-feira, 29 de maio de 2013

As múltiplas perspectivas de El Lissitzky



El Lissitzky
Auto retrato - 1924

 Arquiteto, designer, fotógrafo e tipógrafo, além de professor, El Lissitzky foi, ao lado de Kazimir Malevich, um dos maiores expoentes do movimento artístico russo denominado Suprematismo, que tinha como cerne principal de sua ideologia a supremacia do puro sentimento aliado ao estudo das formas geométricas básicas - particularmente o quadrado e o círculo.
Suas experiências em diversas áreas de estudo lhe muniram de uma enorme gama de ferramentas para suas composições artísticas que eram apoiadas na fusão entre arquitetura, designer e pintura, tornando seu estilo de design gráfico um marco para o século XX, influenciando importantes movimentos artísticos como o Bauhaus e o construtivismo russo.
Uma de suas principais criações artísticas foi o estilo suprematista alternativo, que consistia numam série de obras geométricas abstratas que batizou de Proun. O significado exato do termo foi associado a contração de "proekt utverzhdenya novogo" (desenho para a confirmação do novo), mas mais tarde o autor definiu ambiguamente como sendo: " o patamar onde alguém muda da pintura para a arquitetura". 
Sua vasta obra percorre desde trabalhos arquitetônicos, pinturas, fotomontagens, capas de livros, cartazes de tipografia e desenho industrial.

Algumas de suas obras:

El Lissitzky
victory over the sun all is well that begins well and has no end - 1913






















El Lissitzky
There is over - 1920
























El Lissitzky
Lenin Tribune - 1920
El Lissitzky
Proun 30 - 1920






























El Lissitzky
Suprematic tale about two squares - 1920























El Lissitsky
Preliminary sketch for a poster - 1920


















El Lissitzky
Proun - 1922
El Lissitzky
Cover of the book teyashim four billy goats - 1922












































El Lissitzky
Cover of the avant guard periodical vyeshch - 1922


El Lissitzky
Proun 19 D - 1922














































El Lissitzky
Announcer - 1923






















El Lissitzky
New Man - 1923






















El Lissitzky
Proun - 1923
























El Lissitzky
Proun G7 - 1923






















El Lissitzky
Proun 99 - 1924























El Lissitzky
Iron in clouds for strastnoy boulevard - 1925





















El Lissitzky
Four arithmetic actions - 1928













El Lissitzky
Basic calculus - 1928


















El Lissitzky
Proun 4B























El LIssitzky
Tatlin at work
























El Lissitzky
All for the front all for victory



quinta-feira, 23 de maio de 2013

Nação Jazz - Raul de Souza e seu lendário Souzabone

  
trombonista brasileiro
Raul de Souza


Do subúrbio carioca para o mundo nasce um dos maiores trombonistas da história. Aos 16 anos um jovem promissor inicia sua aventura existencial rumando pelos intrincados e tortuosos caminhos da música, literalmente, colocando a boca no trombone. Assim como acontece quase costumeiramente com os grandes gênios, o jovem garoto, autodidata, aprende a tocar o instrumento de ouvido e adquire as artimanhas através de experiências embalando as noites cariocas. Compositor e multi-instrumentista, Raul de Souza, além do trombone, toca também sax e percussão. Em determinado momento de sua carreira, mais precisamente em 1973, decide atender a um convite para excursionar em turnê pelos Estados Unidos, aonde em 1974, concebe e grava, aquela que seria considerada sua obra prima, o álbum Colors, despejando neste disco todo seu virtuosismo sonoro. O álbum transformou-se em matéria de análise para escolas e estudiosos de música nos Estados Unidos e no mundo, devido às variações rítmicas e melódicas que nele se apresentam.






Raul de Souza
Colors - 1974



 O disco foi produzido por Airto Moreira, a obra conta com participações de pesos pesados do Jazz como o gigante do trombone J. J. Johnson nos arranjos. À frente de um conjunto formado por Jack DeJohnette, na bateria; Ted Lo, piano e teclados; Richard Davis, contrabaixo e percussões do próprio Airto Moreira e Kenneth Nash. O álbum traz com grande naturalidade performances que oscilam magnificamente da gafieira ao fusion






Despenda alguns instantes de sua rotina para ouvi-lo e tire suas próprias conclusões.

A inventividade de Raul não se detém apenas em fazer música, mas também reside no fato dele aperfeiçoar instrumentos, como o fez, adicionando uma nova válvula para o trombone, criando assim o Souzabone, um trombone de quatro válvulas.
 






sexta-feira, 10 de maio de 2013

André Breton: o parteiro insano da imaginação surreal

poeta e teórico surrealista
André Breton

A lucidez lógica de um sistema de crenças envolto à guerras, intrigas e ganância, revela os horrores da dura realidade mundana. Procurar por novos horizontes e pensamentos paralelos a este infame universo criado pelo homem, foi o caminho traçado pelo poeta e escritor André Breton para desvincular a arte das, até então dominantes, exigências lógicas e racionais, trazendo à tona, como mais uma forma de expressão, às profundezas do inconsciente e dos sonhos, dando origem às teorias do movimento surrealista. "Não é o medo da loucura que nos vai obrigar a hastear a meio-pau a bandeira da imaginação" - Frase extraída do Manifesto do Surrealismo escrito por Breton em 1924.

O fascínio exercido pela psicologia e pela insanidade humana na mente de Breton impulsionaram seu mergulho aos confins da consciência, em busca de significados mais perspicazes a respeito da situação humana, acabando por se tornar o cerne vital do movimento surrealista: "A fusão entre o homem racional e sensível, renegada pelas teorias antropológicas até então, trouxe à superfície do pensamento humano a reconciliação do indivíduo com seu próprio mundo interior. Somente através do objeto artístico jorrado diretamente do inconsciente seria possível tocar a profundidade do sentimento humano. 

"A mente que mergulha no surrealismo revive com excitação ardente a melhor parte da infância" - André Breton


Algumas de suas instigantes obras:

André Breton
Nadja - 1928




Não se trata de um livro sobre surrealismo, mas sim da própria e pura experiência surreal de Breton. Nele o autor relata seu breve romance com uma misteriosa mulher chamada Nadja, que ele conhece por acaso caminhando pelas ruas de Paris. Este ser errante e misterioso, dotado do mais elevado grau de liberdade, representa o espírito do surrealismo. Embora Nadja se apresente como a encarnação dos ideais surrealistas, ela também pode ser vista como a personificação da anima de André Breton.
Anima representa as tendências psicológicas femininas do homem. Está relacionada aos sentimentos e sensibilidade. É através dela que o homem entra em contato com sua interioridade, penetrando nas ligações mais profundas da psique.







André Breton
O Amor louco - 1937




Como de hábito Breton funde textos e imagens surreais nesta obra onde descreve o amor através da sua própria vivência, vendo neste dois aspectos - o amor como 'comunicação do coração' e o amor carnal, ao qual chama 'convulsivo'. Esta separação entre o corpo e o espírito quer Breton transformá-la em união total, em paixão, nesse famoso 'amor louco' que é para Breton o amor mais sábio, mais sublime, que a alma do homem poderá alcançar.












André Breton
Manifesto do Surrealismo - 1924

Nesta obra Breton anuncia ao mundo o nascimento do Surrealismo, iniciando com o seguinte trecho: "Tamanha é a crença na vida, no que a vida tem de mais precário, bem entendido, a vida real, que afinal esta crença se perde. O homem, esse sonhador definitivo, cada dia mais desgostoso com seu destino, a custo repara nos objetos de seu uso habitual, e que lhe vieram por sua displicência, ou quase sempre por seu esforço, pois ele aceitou trabalhar, ou pelo menos, não lhe repugnou tomar sua decisão ( o que ele chama decisão! )". E terminando o manifesto com uma de suas frases mais célebres: "Viver e deixar de viver são soluções imaginárias, a existência está em outra parte".
Breton escreveria ainda o segundo manifesto em 1930









André Breton
Vasos Comunicantes - 1932




Neste livro Breton pretende demonstrar que o mundo real e o mundo dos sonhos são o mesmo, examina as várias teorias de interpretação dos sonhos e não se esquece de que a unidade do sonho e da realidade estão enraizadas na transformação social. No entanto o que ele procura além da revolução é o destino do homem, destino nada místico, mas carnal, pois o mundo dos sonhos, para constituir-se, faz mais que extrair o fluxo de experiência. Assim não deixa de diferenciar em Vasos Comunicantes as operações verdadeiras das operações ilusórias que se escrevem em um e outro mundo.
 

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Diálogo ao léu, inspirado em Aldous Huxley (A situação humana)



 Diálogo ao léu inspirado em Aldous Huxley (A situação humana)

Sentados sob a majestosa sombra de uma velha árvore, no alto da montanha, com o vento soprando levemente sobre seus corpos, em algum lugar nos confins da civilização humana, dois seres, bebem cerveja e ao mesmo tempo, tecem um sincero diálogo que não os levará a lugar algum, nem tampouco deixará de ser menos coerente e peculiar do que muitos dos disparatados e incongruentes debates que inundam as linhas do metódico universo virtual: 

- Ei meu caro, qual o seu problema? - Há dias que percebo um certo aroma de agonia exaurindo por seus póros!!
GLUB.GLUB.GLUB. Secando os lábios molhados com o punho - Meu chapa, há quanto tempo eu te conheço?
- Sei lá bicho, mas certamente já deixamos de ser estranhos entre si a algumas milhares de horas.
- Pois bem, nos conhecemos suficientemente bem, compartilhamos muito de nossas reflexões a respeito do que pensamos ou acreditamos. Discordamos de algumas análises e opiniões, obviamente, mas tampouco isso nos perturba ao ponto de repudiarmos um ao outro. Também é sabido que nossas desavenças um pouco mais ásperas, aconteceram, em parte, devido à ignorância escancarada diante de nós, pela falta de experiência e pela arrogância de um ego, construído e moldado em meio a paranóia filosófica e religiosa que cerca a humanidade.
- Essa ultrajante situação humana às vezes me causa repugnância, e faz-me questionar sobre os procedimentos e padrões atuais que são usados para dar significado entre as relações homem/mundo e homem/homem.
Uma pausa para molhar os bigodes em mais um reanimador trago de cerveja.
- E todo este processo existencial ocorrendo em meio a um eterno lapso de espaço e tempo onde nossas experiências vão se acumulando, colidindo uma com as outras, e vagando em direção a complexidade do todo e ao mesmo tempo deparando-se ante a vazia imensidão do nada; como numa imensurável e constante dança embalada por infinitas vibrações mutáveis de ritmos, e que em determinado instante, inesperdamente,  depara-se com obstáculos que porventura elevam-se diante o caminho que nos guia rumo a compreensão das relações físicas e energéticas que nos envolvem e, que de certa maneira, nos mantém.
- Sim, isso mesmo! Vamos percorrendo as veredas do tempo, topando com situações inconvenientes que, muitas vezes, nascem de um sistema de leis e crenças que insiste em manter o pensamento humano oscilando entre lucidez e loucura, através de um intrincado universo, repleto de linguagens e símbolos, que existem para transmitir conhecimento e sabedoria, e ao mesmo tempo também são expostos de forma tendenciosa e condicionante para tentar camuflar as reais percepções existenciais.
- Essa poliopia teórica é um dos grandes dilemas, mas possuir a capacidade para distingui-las e filtrá-las, é uma tarefa árdua, e para isso devemos tentar fortificar ainda mais a bagagem de conhecimento, aguçando a sensibilidade, tendo paciência para olhar e principalmente buscar o domínio sobre desejos e vontades.
- Apreender a refletir e interagir nos obriga a se desfazer de um disfarce, o de querer ser o que não somos.

Uma imensa pausa se inicia, acompanhada pelo ruído do vento.

- E então, afinal de contas, somos?
- O que?
- Aquilo que realmente não somos?
- Quem sabe um dia, talvez seremos? Me passa aí mais uma cerveja, por obséquio.

E nisso seus corpos começam a se dissolver, transformando-se num cintilante líquido amarelo dourado que vai sendo lentamente sugado pela Terra.   


Por Leonardo Barden

segunda-feira, 15 de abril de 2013

A sátira aquarelamente depravada de Thomas Rowlandson

Em meio ao desgastante período de guerras e revoluções que imperavam na Europa durante a era Napoleônica, Thomas Rowlandson encontrou uma válvula de escape para expressar seu instinto cômico através da arte, rindo das fraquezas e vulgaridades da natureza humana.
Possuía uma inesgotável capacidade para transformar gestos e expressões da rotina, em alegres desenhos com pena e aquarela, que muitas vezes perturbam o espectador, com suas chocantes imagens de cunho erótico e sexual.
As características mais notáveis do estilo e de de seu humor residem na justaposição de personagens contrastantes, como o jovem e o velho, o grotesco e o belo, o rico e o pobre, todos divertidamente retrados em suaves e formosas aquarelas.

Thomas Rowlandson
Os pecadores piedosos
























Thomas Rowlandson
O concerto


















Thomas Rowlandson
A assembleia



















Thomas Rowlandson
O paxá




















Thomas Rowlandson
Os adúlteros descobertos




















Thomas Rowlandson
Uma cena de um falso cidadão




















Thomas Rowlandson
O engajamento




















Thomaz Rowlandson
Pornografia étnica























Thomas Rowlandson
Alegre colheita






















Thomas Rowlandson
Renovação espiritual

segunda-feira, 18 de março de 2013

As fusões musicais de João, A Bad Donato.

João Donato, depois de viver por longos anos nos Estados Unidos, onde foi com o intuito de experiências e estudos sonoros, retorna ao Brasil e cai de para quedas em meio ao movimento bossanovista, onde passa relacionar-se com seus principais integrantes. Mesmo assim, com todo o cenário da bossa nova ja montado e favaroável ao sucesso, João Donato, não abandona sua grande paixão, o Jazz Fusion.
João Donato
A Bad Donato - 1970
A Bad Donato é um daqueles discos que se escuta uma, duas vezes e nunca mais ficará esquecido por nosso cérebro. Foi gravado ainda na época em que vivia nos Estados Unidos, e não chegou a ser lançado no Brasil. O nome do álbum faz justamente referência a época da onda bossa novista, mostrando um mau Donato que nadava contra a correnteza musical carioca. O disco é um caldeirão sonoro, onde João Donato usa suas influências musicais brasileira para fazer uma mirabolante fusão musical com elementos do jazz, funck rock, temperado com altas doses do experimentalismo do cenário californiano, onde o disco foi composto e gravado. 

Um disco sensacional e eterno!!



 

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

A filosofia naturalista e pacifista de Leon Tolstói


Leon Tolstói
Lon Tolstói
Embora seja mais lembrado como romancista - escreveu um dos maiores romances da história "Guerra e Paz" - foram através de suas idéias filosóficas e políticas que angariou grande número de seguidores na Rússia e no mundo.
Os ideais filosóficos de Liev Tolstói - como também era conhecido - refletiam seu estilo de vida simples, em busca do necessário à sobrevivência, desprovido da ânsia em busca do acúmulo de capital  e dos bens materiais. Acreditava que as instituições de poder como Estado, Igrejas, Tribunais e seus dogmas eram apenas ferramentas de manipulação opressora de uns poucos homens sobre outros.
O escritor não aceitava a ideia da revolução violenta para a resolução de quaisquer tipo de problemas, mas sim que as verdadeiras mudanças viriam através das transformações morais individuais. Baseado nisso cunhou um longo trabalho sobre o ponto de vista anticapitalista, sobre a reforma religiosa e o protesto pela paz (mais tarde adotado por Ghandi, com quem trocava correspondências e opiniões). 
 Apesar dele, Tolstói, repudiar a associação de sua imagem ao movimento anarquistas, suas ideias foram muito bem aceitas por vários pensadores e escritores do movimento.
Tolstói foi sem dúvida um homem provido de grande capacidade perceptiva, enchergava o mundo sob uma ótica naturalista e pacifista, primava e muito que prática de hábitos naturais eram o balsamo para tranquilizar uma sociedade que parecia mergulhar cada vez mais fundo dentro do processo tecnológico e industrial, pregava também uma alimentação sem carne, segundo ele, um dos entraves evolutivos da humanidade. Tantas ideias paralelas a modernidade levaram-no, ao final de sua vida, a afastar-se da humanidade, refugiando-se aos braços da natureza como um sábio eremita. 


Alguns de seus principais romances:


Leon Tolstói
Os Cossacos - 1863




O livro foi fortemente influenciado pela experiência que Tolstói em 1851, aos vinte e dois anos, teve junto ao exército russo viajando pelo Cáucaso. Descrevendo a vida de Olénin, um jovem junker desencantado, que deixa os amigos e o conforto de Moscovo para à procura uma nova vida longe das dívidas do jogo e depressa se sente seduzido pela natureza e atraído por uma jovem cossaca, Mariana. 













Leon Tolstói
Guerra e Paz - 1865/1869





Guerra e paz acompanha a vida de quatro famílias aristocráticas tendo como pano de fundo a invasão da Rússia por Napoleão. O livro começou a ser publicado em capítulos em um periódico, mas acabou se tornando uma obra descomunal que levou sete anos para ser concluída, com 580 personagens. Seu enredo abrangente explora o valor da família e mostra como a vitória na vida e na guerra em nada além do acaso e das ciscunstâncias.










Leon Tolstói
Anna Karenina - 1873/1877





 
A trama gira em torno do caso extra-conjugal da personagem que dá título à obra, uma aristocrata da Rússia Czarista que, a despeito de parecer ter tudo (beleza, riqueza, popularidade e um filho amado), sente-se vazia até encontrar o impetuoso oficial Conde Vronski.
No decorrer da obra, também são tratadas questões importantes da vida no campo na Rússia da época, onde algumas personagens debatem a respeito das melhores maneiras de gerir suas propriedades de terras, bem como o tratamento com os camponeses.













quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

A insatisfação poética e autobiográfica de Jack Kerouac

geração beat
Jack Kerouac
A sociedade americana pós 2ª guerra passava por um período de intenso conservadorismo, mascarado pelo sonho de uma nação democrata e altamente consumista, onde a repressão a pensamentos anti governistas era uma das formas que o Estado tinha para brecar o ímpeto da mudança entre os jovens. Mergulhados neste cenário de "caça as bruxas" em meados da década de 40, um grupo de jovens, por razões ideológicas e por força do destino - ou mero acaso, como queiram - encontram-se e iniciam a construção de uma profunda relação de amizade, que acabaria culminando o nascimento de um grupo de escritores e pensadores que buscavam uma nova maneira de entender e ver o mundo através da literatura, enquanto faziam experiências com drogas, jazz e zen-budismo. 
E no meio a esta efervescência anti o atual estado das coisas, emergia aquela que talvez seria a mente mais inquieta do bando, a figura de proa do movimento beat, Jack Kerouac. 
A vida transgressora e rebelde de Kerouac refletia-se em seu estilo literário, um turbilhão de idéias que eram jogadas freneticamente para cima do papel, renunciando aos modelos tradicionais em favor de um enfoque espontâneo de fluxo de consciência. Suas obras quase sempre eram inspiradas em relatos seus e de seus amigos beats, trasformando-se em poderosas metáforas autobiográficas a respeito do comportamento de insatisfação diante ao sonho do padrão de vida norte-americano e ao mesmo tempo revelando às angustias de uma juventude que via suas esperanças serem sufocadas pelo sistema.
Kerouac, era taxado por muitos, como boêmio hedonista, mas suas idéias de rebeldia e insatisfação existencial abriram caminho para uma nova maneira de pensar, formando os primeiros sinais do que viria a ser um dos maiores movimento culturais do século passado, a Contracultura.
Apesar de tudo ainda vemos os ideiais de reforma suspirarem ansiosamente perante a gigantesca máquina estatal, que parece cada vez mais faminta devorando as esperanças de um mundo melhor e mais harmônico, mas mesmo assim, reproduzir, formar e difundir pensamentos utópicos foi e sempre será um indicativo de instatisfação. Enquanto ainda existerem individuos, como Jack Kerouac, que exprimam suas angustias e esperanças estimulando a reflexão, o sonho nunca acabará.

Algumas de suas obras:

Jack kerouac
Cidade pequena cidade grande - 1950






 Sua primeira obra, escrita enquanto viajava pelos Estados Unidos, a obra conta a estória da família Martin que acaba de deixar sua cidadezinha natal e partir para a cidade grande Nova York, um caldeirão de culturas que atrai todos aqueles que buscam um futuro e uma identidade. Os Martin - sobretudo Peter - são dotados de uma energia e uma visão de vida especiais. Graças ao talento no futebol americano, Peter ganha uma bolsa para a universidade, o que o levará a dar um passo irreversível e o fará conhecer a grande metrópole americana, e eterna maçã, que guarda para todos o seu quinhão.








Jack Kerouac
On the Road - 1957

O livro que se tornou o marco do movimento beat, onde Kerouc traduz de uma forma semiautobiográfica as experiências da geração beat numa jornada de costa a costa dos Estados Unidos, onde o único objetivo do bando era o prazer em meio à esterilidade do pós-guerra. A obra foi escrita em 3 semanas, de uma forma revolucionária onde o autor faz uso do fluxo de consciência, escrevendo de maneira frenética e contínua sem interrupções, pontos ou vírgulas.










Jack Kerouac
Os subterrâneos - 1958





As obras de Kerouac são um mergulho aos acontecimentos de suas experiências existenciais. Os Subterrâneos é mais um de suas agruras de vida, contada ao estilo Kerouc, escrito durante três dias e três noites, um texto de um só folego com poucas pausas para novos parágrafos. Uma analogia a sua vida em Nova York nos anos 50 e a um caso de paixão com uma garota, rompido bruscamente por questões raciais e sociais.











Jack Kerouac
Os vagabundos iluminados - 1958



Nesta obra Kerouac começa a flertar com a filosofia budista, a luta do desapego contra o estilo de vida consumista norte americano, onde a geração beat encontra-se mais otimista, mais tranquila e como diz o título da obra mais "iluminada".  O enredo é baseado na vida de um aspirante a escritor de São Francisco que anseia por um algo mais na vida, e que depara-se com um jovem zen-budista adepto ao montanhismo que vive com o mínimo de dinheiro possível, alheio a sociedade de consumo.











Jack Kerouac
Maggie Cassidy - 1959





O diário de Kerouac continua, nesta obra, ele sintetiza relatos e crônicas de sua vida no período de adolescência quando morava em Massachusetts no período de 1938 a 1939.














Jack Kerouac
Doctor Sax - 1959



Baseado em um sonho seu o qual ele se encontra em sua época de infância em Massachusetts. Alertado por este sonho ele relembra a história de sua infância em tons quentes de marrom e sépia. As fantasias pertencem a um castelo no topo de uma silenciosa colina verde que Jackie chama Snake Hill. Debaixo da nebliza cinza do castelo, dorme uma grande cobra. Vários vampiros, monstros, lobisomens, gnomos, e magos negros de todo o mundo reúnem-se para a mansão com a intenção de despertar a serpente para que ele levante e devore todo o mundo (embora uma pequena minoria deles, ironicamente chamado de "Dovists" acreditam que a cobra é apenas "uma casca de pombas", e quando ela despertar se abrirá, liberando milhares de pombas de renda branca. Este mito está presente também em uma história contada pelo personagem de Kerouac, Sal Paradise, em On the Road).




Jack Kerouac
Viajante Solitário - 1960
 




Viajante solitário é Kerouac escrevendo sobre seu assunto preferido - as andanças mundo a fora em busca de paz e tranquilidade, sem destino, onde ele relta suas viajens feitas por trem, navios e auto estradas.












Jack Kerouac
Big Sur - 1962





Em 1957, o escritor passou um período retirado em cabana do amigo Laurence Ferlinghetti, na região de Big Sur, na costa da California, onde se dedicou a escrita. E deste retiro, talvez tenha nascido o livro mais profundo e pessoal de Kerouac, onde ele trata dos problemas angustiantes do excesso de drogas e do alcoolismo que se apoderava dos jovens idealistas que permeavam o movimento beat. Um relato instigante sobre a decadência de um mito.













quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Os estados desconhecidos da consciência: por Henri Michaux

poeta, escritor e pintor
Henri Michaux
Procurar entender a formação subjetiva de pensamentos dentro de um mecanismo orgânico repleto de processos químicos é e sempre foi um mistério para a humanidade. Se conhecemos muito pouco sobre o cosmo e seus enigmas, é certo também que muito pouco se sabe a respeito dos segredos existentes dentro do universo mental, cruciais ao entendimento da situação humana.
Henri Michaux foi a fundo na compreensão cérebro/mente e ficou famoso por seus experimentos com a mescalina (substância alucinógena também usada por Aldous Huxley, conforme relato experimental descrito em seu livro "As Portas da Percepção"), para a exploração e a descoberta de estados mais profundos da consciência.
Sua extraordinária obra é composta por escrituras e poemas, mas seu grande destaque criativo é percebido  em seus trabalhos na esfera da pintura, onde Michaux faz uso de sua capacidade criativa para compor desenhos caligráficos de textos ilegíveis, os quais são relatos escritos de suas meditações referente a suas idas e vindas às profundezas da consciência através de seu estudo e experiência com energizadores psiquícos.
Esta idéia de busca por estados desconhecidos e aguçados da consciência formou o cerne do pensamento de Michaux, que eternizou suas extraordinárias experiências em uma obra instigante e de certa maneira incômoda para a história da arte contemporânea.  

Henri Michaux
Narrativa - 1927
 A proposta artística de Michaux transcende os patamares da linguagem formal, caminhando para um mundo mais livre das percepções, um universo subjetivo de pensamentos e caligrafias nervosas realizados num nível mais profundo da consciência, alcançado graças as suas experiências com mescalina.


  

terça-feira, 30 de outubro de 2012

O pensamento iconoclástico de Marcel Duchamp

"Eu me obriguei a me contradizer para evitar que eu me conformasse com meu gosto". Desapontado com o formalismo que tomava conta da vanguarda artística até então, Duchamp decide subverter as formas e conceitos tradicionais, reinventando-se e transformado drasticamente o universo das artes através da criação do conceito do ready mate
Com este pensamento Marcel Duchamp despreza noções, os estilos e a forma de manufatura dos objetos de arte, entendendo que qualquer artefato banal ou industrializado poderia ser transformado numa peça com sentido expressivo, focando não no artigo em si, mas sim na questão da produção da idéia, abrindo as portas para que a arte se tornasse um grande questionamento. 

Marcel Duchamp
Nu descendo a escada - 1912


Marcel Duchamp causava impacto antes mesmo de ingressar no conceito do ready mate, quando adotou o estilo cubista por algum tempo, se integrando ao grupo Puteaux (cubismo orfeônico), não demonstrando lealdade ao movimento, como aconteceu com sua obra "Nu descendo a escada", sofrendo polêmicas objeções de seus colegas, os quais pediram para que renomeasse a obra ou a retirasse da mostra. Ele então a retirou e decidiu não fazer mais parte do grupo.






Marcel Duchamp
A roda da bicicleta - 1913





O termo ready mate significa já pronto. Na visão de  Duchamp o objeto passa do plano funcional para o plano simbólico, obrigando o espectador a refletir sobre a real idéia formulado com aquela imagem tão trivial e comum, que cerca o cotidiano da existencia humana. "A roda de bicicleta" foi sua primeira obra iconoclástica (destruição de símbolos, ídolos, crenças e tradições).









Marcel Duchamp
A fonte - 1917






Porém, sua obra  ready mate mais famosa e polêmica foi "A fonte" (1917), um urinol de porcelana que escadalizou a crítica novaiorquina, ao ser enviada por Duchamp para figurar entre obras a serem julgadas nun concurso de arte, deixando o júri intrigado e perplexo, que rejeitou a escultura sem compreender o que estava acontecendo.















Um título tão excêntrico e desenquadrado do contexto quanto a obra em si, um intricado conjunto de cubos e um osso de choco (uma epécie de molusco marinho)e um termômetro, dentro uma gaiola para pássaros. Esta estranha dialética de perpectivas e sentidos múltiplos arromba portas, até então intocáveis, no horizonte da arte contemporânea, fazendo emergir novas formas de avaliação paralelamente ao belo, ao sublime e ao harmonioso.

Marcel Duchamp
Por que você não espirra Rose Selavy? -  1921




Marcel Duchamp
Rose Selavy - Pseudônimo de Marcel Duchamp




Duchamp desde a tenra juventude fora um apaixonado pelo simbolismo, e adorava trocadilhos visuais e verbais. E sua atitude de assumir a identidade de uma mulher, soaria mais drámatico e misterioso perante os olhos da crítica e da sociedade.
Rose Selavy transformou-se então em seu famoso psudônimo, dando-lhe a possibilidade de explorar, ainda que superficialmente, a experiência do lado feminino.








 


Marcel Duchamp
Etant Donnes - 1968



 Sua última obra só veio a conhecimento do público após sua morte em 1968. Repleta de simbolismos e metáforas, esta obra incita o observador a abandonar seu ponto de vista de receptor passivo, que tem que espreitar por dois orifícios colocados na altura do olhar, numa porta fechada e corroída pela passagem do tempo.
Marcel Duchamp
Visão geral e externa de Etant Donnes - 1968

















Sem dúvida seu legado é imenso, por sua atitude de destruir crenças e conceitos até então pré estabelecidos, alargando o horizonte de entendimento das artes, influenciando os movimentos contemporâneos de novos artistas, e principalmente ao espectador, que fora incitado a ter sempre um olhar múltiplo sobre os acontecimentos e objetos que permeiam o seio da civilização humana. 
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